Artigo | Uma das maiores obras da engenharia brasileira ainda está em construção

23/06/2026 – Motiva

Adriana Martins*

O Brasil conhece bem o valor das grandes obras. Celebramos a ponte que vence um rio, o túnel que atravessa uma montanha, a usina que leva energia a milhões de pessoas e as linhas de metrô que transformam a mobilidade das cidades. Cada uma delas representa uma resposta a um desafio coletivo e um passo importante para o desenvolvimento do país.

Mas há uma obra que, embora menos visível, talvez seja uma das mais importantes para o futuro da engenharia brasileira: ampliar as oportunidades para que mais mulheres participem da construção desse desenvolvimento.

No Dia Internacional das Mulheres na Engenharia, celebrado em 23 de junho, vale refletir sobre um paradoxo. A engenharia sempre foi uma profissão movida pela inovação, pela capacidade de resolver problemas complexos e de transformar a realidade. Ainda assim, durante décadas, nem todos tiveram as mesmas oportunidades de participar dessa transformação.

Isso não significa que faltaram mulheres capazes de fazer história. Muito antes de diversidade se tornar um tema presente nas organizações, mulheres já ocupavam espaços decisivos na engenharia. Emily Warren Roebling foi fundamental para a conclusão da Ponte do Brooklyn, um dos maiores marcos da engenharia moderna. No Brasil, pioneiras como Edna Alves Marques contribuíram para projetos estratégicos ligados à infraestrutura energética, em uma época em que a presença feminina na profissão era rara.

Os dados mostram que essa transformação ainda avança em ritmo lento. Segundo o primeiro Censo Profissional do Confea (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia), as mulheres representam apenas 20% dos profissionais registrados nas áreas de engenharia, agronomia e geociências. No cenário internacional, a UNESCO aponta que elas correspondem a 35% das matrículas em cursos de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) e ocupam apenas 22% dos empregos nessas áreas nos países do G20. No transporte público, um dos setores mais estratégicos para o desenvolvimento urbano, a participação feminina na força de trabalho é de cerca de 19%, segundo levantamento da UITP (Associação Internacional de Transporte Público, na sigla em inglês) publicado em 2025.

Ao mesmo tempo, há sinais concretos de mudança. Entre os profissionais registrados no Confea com menos de 30 anos, cerca de um terço já é formado por mulheres, um percentual significativamente superior ao observado entre as gerações anteriores. É um avanço que mostra que a transformação está em curso, ainda que aconteça em um ritmo menor do que o país precisa. Ao longo da minha trajetória, acompanhei parte dessa mudança.

Quando iniciei minha carreira, era comum entrar em uma reunião ou em um canteiro de obras e ser a única mulher presente. Hoje, felizmente, essa realidade começa a mudar. Cada vez mais mulheres lideram projetos estratégicos, coordenam equipes multidisciplinares e ocupam posições que, por muito tempo, pareciam inacessíveis.

Mas seria um erro imaginar que essa transformação depende apenas delas. Nenhuma grande obra é construída por uma única pessoa. A engenharia sempre foi um exercício de colaboração entre diferentes profissionais, especialidades e experiências. A construção de um ambiente mais diverso segue exatamente a mesma lógica.

Trazer mais mulheres para a engenharia não é uma responsabilidade exclusiva das mulheres. É um compromisso das empresas, das universidades, das entidades de classe e das lideranças, homens e mulheres, que têm a responsabilidade de formar equipes capazes de responder aos desafios de um mundo cada vez mais complexo.

Na mobilidade urbana, essa discussão ganha ainda mais relevância. Projetar uma estação, uma linha ferroviária ou um sistema de transporte significa desenhar a forma como milhões de pessoas viverão a cidade nas próximas décadas. Quanto mais diversas forem as equipes responsáveis por essas decisões, maiores são as chances de desenvolver soluções que representem a pluralidade da sociedade.

Diversidade, portanto, não é apenas uma agenda de inclusão. É uma agenda de qualidade, inovação e desenvolvimento. Talvez essa seja a principal mudança que a engenharia vive atualmente. Não apenas a evolução das tecnologias, dos materiais ou dos métodos construtivos, mas a compreensão de que os melhores projetos nascem quando diferentes perspectivas trabalham em torno de um mesmo objetivo.
Ainda há barreiras a superar. Há espaços que precisam ser ampliados e oportunidades que precisam chegar a mais meninas que sonham em seguir essa profissão. Mas essa é uma obra que já começou. E, como toda grande obra, ela não será concluída pelo esforço isolado de um grupo. Será resultado da capacidade de homens e mulheres trabalharem lado a lado para construir uma engenharia mais forte, mais inovadora e mais representativa da sociedade que ela pretende transformar.

No futuro, talvez o maior legado da engenharia brasileira não esteja apenas nas pontes, nos trilhos, nas estações ou nas usinas que construímos. Esteja também na capacidade de construir uma profissão em que talento, competência e liderança encontrem espaço para florescer, independentemente de quem os carrega.

A inclusão das mulheres na engenharia vai muito além do cumprimento de cotas ou de reparação histórica, trata-se de desenhar o futuro com todas as mentes disponíveis, Quando barramos ou desestimulamos o talento feminino, privamos o mundo de soluções inovadoras, perspectivas plurais e da liderança resiliente que as mulheres historicamente carregam.

Porque as maiores obras não transformam apenas cidades, elas transformam as pessoas que ajudam a construí-las.

Como sua empresa ou universidade tem incentivado a presença feminina na engenharia hoje?

Por Adriana Martins, diretora de engenharia da plataforma de trilhos da Motiva*