Ferrovia de 1884, palco de combates na Revolução de 1932, foi reconstruída no trecho em Cruzeiro, no Vale do Paraíba
21/06/2025 – O Estado de S.Paulo
Na reinauguração, um vagão com 52 lugares será puxado por uma locomotiva diesel-elétrica Alco 3507, fabricada em 1958, nos Estados Unidos, que operou até 1999. A máquina ia ser cortada como sucata, mas foi adquirida para fazer manobras no Porto de Santos. A ABPF a comprou em 2017 e a locomotiva passou por restauro nas oficinas de Cruzeiro.
Conforme Bruno Crivelari Sanches, da ABPF regional sul de Minas, a estreia do trecho aproveitará um evento de ferromodelismo que acontece na cidade na mesma data, na estação ferroviária de Cruzeiro.
“O trecho está concluído de Cruzeiro até a Estação Rufino de Almeida, que fica no pé da serra. Essa viagem será um termômetro para a gente programar viagens ao menos uma vez por mês”, diz.
O projeto do Expresso da Mantiqueira é o maior já assumido pela ABPF desde sua criação. Além de ser uma ferrovia histórica, o traçado percorre encostas da Mantiqueira, passando por belas paisagens que mostram a exuberância da serra.
A recuperação está sendo executada com recursos da entidade, além do apoio institucional da prefeitura de Cruzeiro e doações de materiais feitas pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM).
“A entidade é pequena, tem poucas pessoas. Temos feito o remanejamento de parte das equipes do trem da Serra da Mantiqueira, em Passa Quatro (MG), e do Trem das Águas de São Lourenço (MG) para nos ajudar. Conforme há disponibilidade, a gente avança com o projeto. É uma obra que não tem dinheiro público”, diz Sanches.
A ferrovia estava inativa há 30 anos e, em muitos pontos, não havia mais trilhos nem dormentes. Os serviços incluíram a recuperação do pátio da estação de Cruzeiro, o desaterramento de trechos da linha que tinham sido cobertos por asfalto com a construção de ruas urbanas e a substituição de todos os dormentes.
Sanches conta que, em alguns lugares, foi preciso remover passagens de nível clandestinas e negociar a saída de invasores que tinham se estabelecido na linha. A estação de Rufino precisou ser restaurada. Apenas para recompor o lastro da linha férrea foram usadas 2,5 mil toneladas de brita.
A próxima etapa prevê reconstruir outros 17 quilômetros de trilhos, o que vai implicar na recomposição de aterros que ruíram e retirada de barreiras que caíram sobre os trilhos. O novo trecho vai passar pela Garganta do Embaú e vencer um desnível de 553 metros para subir a serra até o Túnel da Mantiqueira.
O projeto prevê a integração do Expresso Mantiqueira, o trem turístico paulista com o mineiro, e do Trem Serra da Mantiqueira, que a ABPF já opera do outro lado do túnel.
Como foi a passagem do imperador pelo local?
A Estrada de Ferro Minas e Rio se originou de uma concessão dada em 1875 pelo governo imperial, mas a companhia foi organizada em Londres, em 1880. O plano era ligar o sul de Minas com o Rio de Janeiro. A empresa inglesa Waring Brothers começou a construção no ano seguinte.
O imperador esteve na estrada de ferro em duas ocasiões: além de participar da inauguração com sua comitiva em 1884, dois anos antes ele visitou as obras com a família imperial – dom Pedro II posou para uma foto na boca do túnel ainda em construção.
O túnel, com 998 metros de extensão, que varou a serra de um lado para o outro, foi inaugurado em 1883, com a ferrovia ainda incompleta.
Durante a Revolução de 1932, quando os paulistas se levantaram contra a ditadura de Getúlio Vargas, a ferrovia foi usada para o transporte de soldados e armas. O túnel passou a ser um ponto estratégico de resistência ao avanço das tropas federais aquarteladas em Minas.
Houve batalhas sangrentas, com perdas de ambos os lados. Quando os federais conseguiram tomar o túnel, a guerra acabou. O armistício foi assinado em Cruzeiro, em 2 de outubro daquele ano.
