Na Mídia | VLT impulsiona aumento de passageiros sobre trilhos no Rio; confira motivos que fizeram até perfil dos usuários mudar

Relatório da ANPTrilhos é motivo para comemorar, segundo representante da entidade

10/09/2025 – O Globo

Um relatório da Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos (ANPTrilhos), que mapeou sistemas em 11 estados e o Distrito Federal, mostra que os modais sobre trilhos do Rio registraram aumento no número de passageiros transportados no primeiro semestre deste ano, em comparação ao mesmo período do ano passado. No caso fluminense, além do metrô e do trem, o VLT faz parte dessa conta: e é justamente o caçula desses sistemas, que atende o Centro e a Zona Portuária, uma das explicações para essa alta.

— Até hoje não conseguimos retornar ao nível (de demanda) que a gente tinha antes da pandemia, no Rio, no Brasil e nos Estados Unidos. Na Europa, houve incentivo muito grande, através de subsídios, para que as pessoas voltassem a usar o transporte público. Então, a gente tem que comemorar esse aumento de passageiros — observa Joubert Flores, presidente do conselho administrativo da ANPTrilhos, que divulga o estudo nesta quarta-feira.

O VLT do Rio registrou 13 milhões de usuários de janeiro a junho deste ano, número 18% maior que os 11 milhões nos primeiros seis meses de 2024. Ao todo, se somadas as demandas de trem, metrô e VLT, o primeiro semestre teve 161,2 milhões de usuários, 1% a mais que os 159,6 milhões do mesmo período do ano anterior, o que coloca o Rio como quinto estado, entre os mapeados, com maior aumento de demanda, percentualmente: está atrás do Piauí, com crescimento de 51,2%, explicado por ações como uma nova linha e a implementação de tarifa zero, seguido por Rio Grande do Sul (4%), Alagoas (3,2%) e Bahia (2,5%).

Ainda de acordo com o estudo na ANPTrilhos, a inauguração do Terminal Gentileza, ocorrida em fevereiro do ano passado, seguida da operação plena da linha que liga o espaço à Praça Quinze ajudam nesses números do sistema fluminense. Além de duas linhas do VLT, atualmente o terminal conta com seis linhas do BRT, vindas da Zona Norte, e outros 17 serviços de ônibus, oriundos de todas as regiões da cidade.

— Aumentou muito o número de passageiros, que mudaram de perfil. Hoje é todo mundo. No início, era mais turista — conta a secretária Ivone Gomes, que mora em Paquetá e usa o VLT entre a barca e o trabalho, no Centro.

Do uniforme ao paletó, das pochetes às pastas, o vai-vem pelo Centro chega a lembrar dos tempos pré-pandêmicos. Hoje, iniciativas, como o programa Reviver Centro, buscam voltar a movimentar a região. Paralelamente a isso, a mudança na forma de trabalho também pode colaborar nessa retomada para o bairro. Claudio Guimarães, conselheiro da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-RJ), observa que, nos últimos tempos, o home office “puro” diminuiu e as pessoas voltaram aos escritórios. Com isso, o trabalho híbrido aumenta o fluxo de pessoas transitando pelo bairro nos dias de pico, especialmente terça, quarta e quinta-feira.

— Vou ser franco, na hora do rush o VLT não está dando vazão — observa o chefe de manutenção Sidnei Viana, de 69 anos, que também elogia. — Sou da antiga e o VLT é bem melhor que o ônibus. Um trajeto da Central até a Sete de Setembro, que levava 30 minutos, hoje dura 5.

Diretora do VLT Carioca, Silvia Bressan, por sua vez, afirma que a equipe técnica avalia a demanda semanalmente, para realizar ajustes. Ela enumera medidas tomadas na operação com o aumento da demanda:

— A redução do intervalo nos trechos compartilhados (como na Avenida Rio Branco), de 4, para 3,5 minutos, e o ajuste da linha 1, que passou a operar com intervalos médios de 7 minutos. Antes eram 8 minutos.

Grandes eventos e o porto

A concessionária que administra o sistema lembra ainda que, para além de quem vai para o trabalho, o VLT também é usado por turistas, que acessam o modal para acessar, da Rodoviária Novo Rio ou do Aeroporto Santos Dumont, estações de metrô. Durante o carnaval, os megablocos e os desfiles na Sapucaí também motivaram grande procura do sistema.

Outro fator que pode colaborar para o aumento da demanda do VLT é a revitalização da região portuária. Além de museus e eventos realizados no entorno da Praça Mauá, prédios erguidos no Porto Maravilha já têm seus primeiros moradores, como Sandra Lima, criadora do canal no YouTube “Porto Maravilha RJ”, que mostra obras dos empreendimentos, além de dicas culturais e gastronômicas do entorno.

— Apesar de termos carro, meu marido usa o VLT até o Centro, proque é mais prático. Eu também, para ir para todos os lados — conta ela.

Já há cerca de 2.500 pessoas morando nos novos condomínios da construtora Cury, responsável por 18 empreendimentos da região. Presencialmente, ainda há uma média de 300 corretores trabalhando por dia, além de outros 500 funcionários. Pelos próximos três anos, 10.400 unidades serão entregues.

— O VLT é talvez o maior atrativo, porque em 70% dessas unidades não há vaga de garagem — observa Leonardo Mesquita, vice-presidente de Negócios da Cury. — Não tem um bairro no Brasil com esse serviço dessa qualidade, como o do VLT.

As estações que registraram maior aumento de demanda no primeiro semestre são o Terminal Gentileza (110%), Cristiano Ottoni (12%), Colombo (18%) e São Bento (34%). Diante da implementação do cartão Jaé, o VLT ainda está entre os transportes municipais englobados na integração de R$ 4,70 do Bilhete Único Carioca.

Expansão do metrô

O relatório da ANPTrilhos menciona ainda a articulação em prol da expansão do metrô, assim como a conclusão da estação Gávea do metrô como principais anúncios para o sistema sobre trilhos do Rio. Segundo a Secretaria estadual de Transporte e Mobilidade Urbana (Setram), a pasta atua junto à Riotrilhos no projeto de expansão previsto no Plano Diretor Metroviário, que inclui a ligação Estácio-Praça Quinze; a criação da Linha 3 (Praça Quinze—Niterói—Guaxindiba), que vai receber R$ 20 milhões do Ministério das Cidades para a fase de estudos; e a extensão da Linha 4 da Barra da Tijuca até o Recreio.

A pasta estadual diz ainda, sobre a SuperVia, que está próxima de entregar a operação dos trens ao governo, que um grupo de trabalho atua “de forma articulada com órgãos técnicos da administração pública e especialistas do setor ferroviário, desenvolvendo ações estratégicas”. Já sobre a integração dos modais estaduais com os modais municipais da capital, a Setram “informa que está em tratativa para a implementação da nova bilhetagem adotada pela Prefeitura do Rio em transportes estaduais”.