Foram transportadas 33,85 milhões de pessoas a mais no 1º semestre em relação ao mesmo período de 2025; o incremento teria sido anda maior com políticas públicas de incentivo, avalia setor
16/09/2026 – Estadão
A carioca Vânia Morais, que trabalha com comunicação corporativa, morava em Ubatuba (SP) até o final do ano passado. Precisava de carro para tudo, quando a distância não podia ser percorrida de bicicleta. Mas, ao voltar a residir no Rio de Janeiro, ela entrou nas estatísticas da Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos, a ANPTrilhos. A entidade verificou que, entre o primeiro semestre de 2026, os sistemas metroferroviários de todo Brasil transportaram 1,30 bilhão de passageiros no Brasil, 33,85 milhões a mais do que no mesmo período de 2025, um incremento de 2,7%.
Foram transportados 8,86 milhões de passageiros por dia útil, e Vânia era uma dessas pessoas. “Moro no Catete e trabalho no centro, na estação Carioca do metrô. Perto demais. É assim: Catete, Glória, Cinelândia e Carioca. Em dez minutos eu chego”, conta ela.
No final de junho deste ano, o sistema de transportes urbanos sobre trilhos chegou a 1,140 mil quilômetros. Foram entregues três novas linhas ou 15,4 quilômetros de extensão a mais, com 17 estações e paradas. Mas não foi esse acréscimo que provocou o aumento no número de usuários, segundo a diretora-presidente da ANPTrilhos, a paraense Ana Patrizia Lira. “Outros 15 quilômetros ainda estão em operação assistida, com horários reduzidos, e por isso não foram ainda contabilizados”, explica.
Ana Patrizia acredita que o aumento de uso aconteceu realmente porque mais gente está usando o transporte sobre trilhos, mais vezes.
“Eu usava metrô uma vez por semana e, atualmente, passei para duas ou três porque comecei a ir mais vezes presencialmente ao escritório”, conta o paulistano Paulo Machado, especialista em marketing. Ele mora em Diadema, no Grande ABC, e usa o trólebus pelo corredor metropolitano para chegar ao metrô e, de lá, se desloca para outras regiões da capital.
Setor tem capacidade de receber ainda mais gente
Esse crescimento, mesmo sendo positivo, ainda está abaixo da capacidade de transporte do setor, segundo a diretora. A infraestrutura instalada tem espaço para mais. “Um ano antes da pandemia, a média anual de passageiros transportados foi de 3,26 bilhões de pessoas. Hoje, estamos com 2,6 bilhões”, diz Ana Patrizia.
‘O transporte urbano ferroviário precisa ter o mesmo tratamento que educação e saúde têm’, diz Ana Patrizia Lira
Por isso, a entidade lançou em agosto uma campanha chamada “No Trilho Certo”, não só para estimular mais gente a usar o sistema, mas para chamar a atenção do governo para o tema. “O transporte urbano ferroviário precisa ter o mesmo tratamento que educação e saúde têm. E explico por quê: com mais transporte ferroviário, há menos acidentes de trânsito e menos poluição. Hoje, 60% dos pacientes de UTI são vítimas de acidentes de trânsito. A poluição também adoece muita gente. Então o governo federal precisa olhar com mais prioridade para o setor”, conta a executiva.
Atualmente, segundo a ANPTrilhos, a União não tem nenhuma participação na composição tarifária do setor. E isso é importante, uma vez que existe um conceito chamado de “modicidade”, que impera nessa área: o valor da tarifa para os usuários precisa sempre ser baixo (a palavra vem de “valor módico”). Senão, as pessoas não usam. No Rio, por exemplo, o total de passageiros cresceu de 161,23 milhões para 161,52 milhões de entre janeiro e junho deste ano na comparação com 2025.
“Lá, o valor da tarifa ia subir de R$ 7,80 para R$ 8,10. Mas o governo subsidiou esses 30 centavos. Já o bilhete de ônibus, passou de R$ 4,70 para R$ 5. Por isso a gente defgende uma Política Nacional de Modicidade Tarifária, com fontes permanentes de custeio para aliviar o peso da tarifa paga pelo usuário e cobrir os altos custos fixos do setor”, explica Ana Patrizia.
Com a participação da União, o transporte urbano sobre trilhos também teria mais estímulo para se espalhar por outras cidades do País. A concentração é tanta que, só o estado de São Paulo, sendo a Região Metropolitana da capital a principal área, foi responsável por 1 bilhão dos 1,30 bilhão de passageiros transportados no ano passado no País todo.
Juntos, São Paulo e Rio de Janeiro responderam por 97,3% dos acréscimos (35,45 milhões de passageiros) no semestre.
Para tanto, a associação defende dois pontos: a criação fortalecimento de Autoridades Metropolitanas de Mobilidade Urbana, como prevê o Marco Legal do Transporte Público Coletivo (Lei nº 15.432/2026), criado este ano, e investimento continuado, com garantia de R$ 20 bilhões por ano para a expansão da rede metroferroviária. Hoje, esse valor alcança R$ 8,6 bilhões. “Não fomos nós que definimos esses R$ 20 bi. Foi o próprio Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)”, diz ela.
Num levantamento intitulado Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU), o BNDES, em parceria com o Ministério das Cidades, estima que o Brasil precise de mais 1,3 mil quilômetros de malha ferroviária urbana, sendo 450 quilômetros de metrô, 366 quilômetros de trem urbano e entre 555 e 933 quilômetros de VLT. “É uma carteira muito maior do que o ritmo de expansão dos últimos anos, o que mostra a urgência de tirar esses projetos do papel”, diz Ana Patrizia.
Já as Autoridades Metropolitanas de Mobilidade Urbana são órgãos que ajudariam na expansão do sistema porque a partir delas, os investimentos não seriam tão concentrados em apenas alguns municípios, mas sim em conglomerados urbanos.
Além disso, a ANPTrilhos reivindica que a lei do Vale Transporte seja atualizada. Criada em 1985, ela determina que o empregador antecipe o custeio de transporte de seus empregados. Mas naquela época, nas cidades, de 45% a 50% dos trabalhadores eram registrados sob o regime CLT (com carteira de trabalho assinada). Hoje, esse porcentual caiu para 38%, conforme dados oficiais.
“Houve muita pejotização, há um crescimento do empreendedorismo. Por isso a gente defende que as empresas paguem uma taxa por empregado independentemente do tipo de transporte que o funcionário usa, como é na França”, diz a diretora. Isso garantiria mais verba para o setor.

