Linha 6-Laranja de metrô: trecho Brasilândia-Perdizes será entregue em outubro, diz CEO da Acciona

Operação do novo ramal metroviário começará com oito estações; ligação completa até São Joaquim ficará para o final de 2027

19/02/2026 – Estadão

Entrevista com André De Angelo
CEO da Acciona no Brasil

Neste ano, os paulistanos devem ganhar duas novas linhas de transporte sobre trilhos. Uma delas é a 17-Ouro, monotrilho que irá ligar a estação Morumbi, da Linha 9-Esmeralda, ao aeroporto de Congonhas, na zona sul de São Paulo. A outra é a Linha 6-Laranja do metrô, que irá unir, quando finalizada, a região da Brasilândia, na zona norte, à estação São Joaquim, na Linha 1-Azul, na região central.

Essa linha ficou parada vários anos devido a problemas que atingiram os consórcios inicialmente responsáveis por sua construção até ser assumida em outubro de 2020 pela empresa espanhola Acciona.

“Quando começamos, havia apenas cerca de 2% da obra finalizados. Eram só alguns poços escavados e canteiros abertos”, afirma André De Angelo, CEO da Acciona no Brasil. “Atualmente, temos mais de 11 mil funcionários trabalhando em três turnos para manter o cronograma e iniciar a operação ainda este ano.”

Com investimento total de R$ 19,1 bilhões, o projeto da Linha 6-Laranja é uma parceria público-privada (PPP) do governo do Estado com a concessionária Linha Universidade (Linha Uni). Quando pronta, a Linha 6 terá 15,3 km de extensão, 15 estações e estimativa de transportar 633 mil passageiros por dia. Confira mais detalhes na entrevista a seguir.

Quando a primeira fase da Linha 6-Laranja será entregue?

Mais de 77% da obra toda está finalizada. Devemos iniciar a operação do tramo norte da linha em outubro. Essa primeira fase está com 87,56% das obras finalizadas. Esse primeiro trecho inclui a entrega de oito estações: Brasilândia, Itaberaba-Hospital Vila Penteado, João Paulo I, Freguesia do Ó, Santa Marina, Água Branca, Sesc-Pompeia e Perdizes. A estação Maristela, entre Brasilândia e Itaberaba, porém, ficará para o final de 2027. Ali encontramos alguns problemas com relação à geologia que atrasaram o cronograma de entrega.

O que a Acciona tem feito para manter esse cronograma de entrega?

Atualmente, temos mais de 11 mil funcionários trabalhando nas obras. É muita gente. Uma das providências é intensificar o trabalho nas oito estações com a inclusão do terceiro turno. Isso, aliás, já aconteceu outras vezes também como forma de manter o cronograma da obra. De noite, procuramos evitar movimentos externos que tragam muitos ruídos e incomodem a vizinhança. Nesse período, procuramos focar em obras relacionadas ao acabamento interno das estações. Mas tudo é muito dinâmico e também há outras atividades a fazer. Os trens, por exemplo, só podem ser testados durante a noite. É justamente nesse horário que é possível energizar a linha para fazer os testes necessários. Depois de tudo feito, é preciso desenergizar a via. São, no mínimo, 6 horas de trabalho. Depois, mais duas para desenergizar tudo – que é preciso fazer para segurança dos operários. E tudo isso a cerca de 30, 40 metros de profundidade ou mais, dependendo do local.

O que os usuários irão encontrar de novidade em relação às demais linhas de metrô de São Paulo?

É bom lembrar que o projeto inicial dessa linha é de 2013, 2014. Mas o que foi possível adaptar, dentro dos limites da licitação havia sido feita, foi atualizado e modernizado. Assim, os passageiros irão encontrar tudo o que há de mais moderno e atual em termos de mobilidade urbana. As estações são amplas, têm excelente acessibilidade e já serão entregues com portas nas plataformas, o que dará mais segurança aos usuários. Muito diferente do que acontece com algumas linhas atuais que tiveram que adaptar as portas em estações antigas. Também haverá muitos espaços para comércio, o que irá oferecer mais conforto aos usuários. Os trens são supermodernos, confortáveis e com condução 100% autônoma, como nas linhas 4 e 5.

A estação Sesc-Pompeia, que será entregue nesta primeira fase, foi construída em uma região atingida por enchentes constantes. Basta chover forte que o cruzamento da Rua Venâncio Aires com a Avenida Pompeia, exatamente onde fica a estação, alaga. A estação vai alagar?

Não é para isso acontecer. Nós também sofremos muito durante as obras com os alagamentos ocorridos ali. Soube que a prefeitura está retomando o projeto de drenagem para acabar com as enchentes na região. De qualquer forma, para evitar que ocorra qualquer interrupção na operação da Linha 6 fizemos a estação Sesc-Pompeia numa cota 2,49 cm acima do nível da calçada.

[Sobre o tema, a assessoria de comunicação da Prefeitura de São Paulo respondeu por meio de nota que: “A SPObras informa que está em fase de elaboração o material licitatório para a contratação das obras de drenagem complementares das bacias dos córregos Água Preta e Sumaré, no âmbito da Operação Urbana Água Branca”. Segundo a nota, “o projeto prevê a implantação de novas galerias de águas pluviais, além da ampliação da seção da galeria existente, com o objetivo de aumentar a capacidade de escoamento e mitigar pontos de alagamento na região. A Prefeitura está em tratativas com o Governo do Estado para compatibilização dos projetos de drenagem para a região. A publicação do edital de licitação está prevista para o primeiro semestre deste ano. Após o término da licitação, as obras poderão ser contratadas e iniciadas”.]

E o segundo trecho da Linha 6, de Perdizes a São Joaquim, quando entrará em operação?

O tramo sul, que está com 60,58% das obras concluídas, deverá entrar em operação no final de 2027. Essa é nossa expectativa. Quando a linha estiver finalizada, o usuário levará apenas 23 minutos para ir da Brasilândia a São Joaquim. Atualmente, de ônibus, esse trajeto leva cerca de uma hora e meia. Importante lembrar que a linha vai passar ao lado de várias universidades, como a PUC, a Faap e o Mackenzie, entre outras. E. com isso, facilitar a vida de milhares de universitários, principalmente aqueles que estudam à noite.

Qual é a previsão do total de passageiros por dia na linha?

A estimativa é de transportar 633 mil pessoas por dia. Quando a linha estiver completa prevemos que o grande fluxo de passageiros virá da estação São Joaquim, assim como na estação Mackenzie-Higienópolis, devido à conexão com a Linha 4- Amarela. A estação Água Branca também deverá trazer muitos usuários, já que ali passam atualmente os trens da Linha 7-Rubi com destino à estação Barra Funda. Futuramente, há projetos de a estação se torne um importante hub do transporte sobre trilhos com a chegada da linha de trem que ligará São Paulo a Campinas, entre outros projetos em estudo.

Com relação às entregas da segunda fase da linha, prevista para 2027, qual é a situação da estação 14-Bis- Saracura?

O ritmo de escavação está mais reduzido do que era esperado. Isso porque estamos seguindo todas as orientações dadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Dessa forma, nossa expectativa é que ainda nesse primeiro semestre de 2026, talvez entre março e abril, a gente consiga concluir toda parte de arqueologia e dar o ritmo adequado nas escavações. Será um desafio muito grande colocá-la em operação em 2027 junto com as demais estações.

Quais foram os principais desafios encontrados durante a obra?

Esta linha é a maior obra de mobilidade urbana no Brasil. Construir uma nova linha de metrô é muito complexo. Quando se tem uma obra com 15 km de extensão, 15 estações, 18 poços de ventilação e um pátio, se espera desafios. Tenta-se prever o mais que se pode com estudos de engenharia prévios. Além disso, tivemos um grande desafio para formar equipes de trabalho. Vamos lembrar que durante uns cinco anos o mercado de engenharia do Brasil ficou bastante abatido. Durante a execução da obra houve um problema sério com o emissário da Sabesp na Marginal Tietê. Também tudo que é associado à geologia gera novos desafios. Não podemos esquecer que essa é a linha de metrô mais profunda de São Paulo. Apesar de vários ensaios de engenharia e geologia feitos anteriormente, quando as equipes chegam com os equipamentos verifica-se que, por exemplo, o solo não é aquele que estava previsto nos ensaios originais. É o que aconteceu na estação Higienópolis-Mackenzie, por exemplo, que foi um caso bastante complexo. Ali foi preciso refazer toda a parte de contenção, pois o solo apresentava pouca resistência e muita água. Com isso, a velocidade de escavação teve que ser reduzida e foi preciso fazer injeções de concreto para reforçar as paredes. Nada disso estava previsto. O que se previa era a escavação com a tuneladora (“tatuzão”), máquina que, enquanto perfura o solo, instala o revestimento estrutural. Por tudo isso foi necessário fazer uma nova engenharia para que se pudesse construir uma estação ali.

E quanto à profundidade da linha?

Algumas das nossas estações são bastante profundas. A maior delas é Itaberaba, com 66,91 metros de profundidade. A segunda é Higienópolis-Mackenzie, com 65,06 metros. Além disso, a linha passa 11,5 metros abaixo da calha do Rio Tietê. Também existe um desnível de aproximadamente 105 metros entre o ponto mais alto (Pátio Morro Grande) e o mais baixo (Estação Água Branca). Essas características fazem com que a linha se torne muito complexa.

Com quantos composições (trens) a linha começará a operar?

A operação terá início com 22 composições com seis carros cada. Uma composição pode transportar até 2.044 passageiros. Os trens são fabricados pela Alstom em Taubaté (SP). Para atender os usuários nas horas de maior pico, foram construídos dois estacionamentos para os trens no meio da linha. Um sob a Marginal Tietê e outro sob o estacionamento do Pacaembu. Isso agilizará o atendimento dos passageiros. Com a futura extensão da linha, quando haverá seis novas estações, já estão previstos mais 11 trens, totalizando 33 composições.

A Acciona tem interesse na construção da futura Linha 16-Violeta, que ligará a região da Oscar Freire à zona leste?

Sim. Demonstramos interesse no segundo semestre de 2024. O governo do Estado de São Paulo autorizou que a empresa avançasse para os estudos de viabilidade, que foram apresentados em maio do ano passado. Agora, estamos aguardando a decisão do governo. É provável que saia uma nova PPP ali.

O sr. poderia citar alguns outros projetos nos quais a Acciona atua?

No Brasil, a empresa atua no setor de água e saneamento no Paraná e no Espírito Santo. Além disso, desenvolveu o Terminal 2, do Porto de Açu, no Rio de Janeiro, e a transformação da histórica Estação Júlio Prestes, em São Paulo, em uma sala de concertos de nível internacional. Na América Latina, entre outros projetos, há o metrô de Quito, no Equador, com 20 km de trilhos, já em operação. Também há a planta de tratamento de água da Cidade do México, considerada uma das maiores do mundo. No Chile há grandes obras na área de mineração, principalmente de cobre.

A Linha 6-Laranja em números

• Mais de 11 mil funcionários
• Quando finalizada, o ramal terá 15,3 km de extensão e 15 estações
• 633 mil passageiros devem usar a linha por dia
• Primeira fase será entregue em outubro deste ano com 8 estações: Brasilândia, Itaberaba, João Paulo I, Freguesia do Ó, Santa Marina, Água Branca, Sesc-Pompeia e Perdizes
• A estação Maristela (entre Brasilândia e Itaberaba) ficará para 2027
• Segunda fase será entregue no final de 2027 com 6 estações: PUC-Cardoso de Almeida, Faap-Pacaembu, Higienópolis-Mackenzie, 14 Bis-Saracura, Bela Vista e São Joaquim
• 66,91 metros é profundidade da estação Itaberaba, a maior da linha
• R$ 19,1 bilhões é o total de investimento previsto
Fonte: Acciona