A retomada das ferrovias no Brasil passa por diagnósticos e por continuidade. Foi esse o fio condutor que atravessou o Painel 3, “Indústria Ferroviária em Movimento: inovação, tecnologia e competitividade”, no 1º Fórum Ferroviário em Minas Gerais – O Futuro do Brasil de Volta aos Trilhos, com participação da ANPTrilhos. Ao moderar o debate, a diretora-presidente da Associação, Ana Patrizia Lira, chamou atenção para a necessidade de planejamento contínuo e formação de mão de obra, dois pontos que emergiram com força entre os participantes como condições essenciais para sustentar o crescimento do setor.
O painel reuniu representantes da indústria, como Daniela Ornelas, vice-presidente de Product Management da Wabtec, e Vicente Abate, presidente da Associação Brasileira da Indústria Ferroviária (ABIFER), em uma discussão que conectou inovação tecnológica, políticas públicas e competitividade industrial.
Segundo Ana Patrizia, um dos principais consensos foi a necessidade de o país construir uma visão de longo prazo para o setor. “Os participantes ressaltaram a importância de planejamento por parte do governo. Com previsibilidade, a indústria consegue se organizar, investir e desenvolver soluções com mais eficiência”, afirmou.
A discussão mostrou que a descontinuidade dos projetos ferroviários ainda é um dos principais entraves ao avanço do setor. Ao abordar o tema, Daniela Ornelas destacou que ciclos de expansão seguidos por interrupções comprometem não apenas a execução de obras, mas também a capacidade industrial instalada. “Ciclos de expansão seguidos por interrupções comprometem custos e continuidade, o que não é bom para a inovação”, sintetizou.
Para Ana Patrizia, esse cenário tem efeitos em cadeia. “Quanto maior a continuidade dos projetos ferroviários, maior a capacidade de desenvolver fornecedores locais, reduzir custos, formar mão de obra e estimular inovação”, pontuou.
Outro ponto que ganhou centralidade foi o desafio da qualificação profissional. A falta de mão de obra capacitada foi apontada como um gargalo transversal, presente tanto na indústria quanto nos serviços. “Há um reconhecimento claro de que o Brasil precisa avançar na formação de profissionais para acompanhar a evolução tecnológica do setor. Esse é um cuidado que precisa ser incorporado à agenda nacional”, destacou a presidente da ANPTrilhos.
Ao direcionar perguntas ao presidente da ABIFER sobre o programa Nova Indústria Brasil, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), Ana Patrizia trouxe ao centro a relação entre política industrial e o futuro do setor ferroviário. Em sua fala, Vicente Abate destacou que o setor ferroviário é parte estratégica dessa agenda por sua capacidade de induzir cadeias produtivas complexas, gerar empregos qualificados e promover inovação tecnológica.
Ele ressaltou que, para que esse potencial se concretize, é essencial que governo garanta segurança jurídica, e tenha um olhar atento para o fortalecimento da indústria nacional, além de avançar na renovação da frota.
No Painel 1, o secretário de Estado de Infraestrutura, Mobilidade e Parcerias de Minas Gerais, Pedro Bruno Barros de Souza, destacou que o modal ferroviário contribui para a redução de emissões, melhora o fluxo nas rodovias e eleva a produtividade industrial. Segundo ele, houve avanços na qualidade da prestação do serviço nos últimos anos, e o estado já discute a estruturação das Linhas 3 e 4, sinalizando novos passos para a expansão da malha.
Em outro momento do evento, no Painel 2, ainda com a expansão do setor em pauta, o diretor-geral do Metrô BH, Júlio Freitas, destacou o avanço das obras na capital mineira e apontou um cenário positivo para a ampliação do sistema. Segundo ele, o cronograma vem sendo cumprido de forma consistente, com previsão de antecipação na entrega de estações da Linha 2, o que deve acelerar a ampliação da oferta de transporte à população.
Realizado pelo Conselho de Infraestrutura da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG), o Fórum foi um espaço de diálogo entre indústria, operadores e poder público. Em um estado que concentra a maior malha ferroviária do país, o encontro mostrou a relevância das ferrovias como vetor de desenvolvimento econômico e logístico.“O Brasil já reúne conhecimento técnico, indústria e demanda. O desafio está em garantir continuidade, coordenação e visão de futuro para transformar esse potencial em expansão real”, concluiu Ana Patrizia.

