Setor ferroviário debate expansão e desafios do transporte sobre trilhos no Brasil

O Brasil vive uma janela de oportunidade para reorganizar o setor ferroviário com bases mais sólidas, conectando planejamento, financiamento e governança. “Não há cidade competitiva com mobilidade precária. E não há mobilidade de alta capacidade sem investimento consistente em trilhos”, avaliou a diretora-presidente da ANPTrilhos, Ana Patrizia Lira, durante o Encontro do Setor Ferroviário, promovido pela Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha de São Paulo (AHK São Paulo).

Realizado em um momento de retomada do debate sobre infraestrutura e mobilidade nas cidades, o encontro reuniu especialistas, empresas, fabricantes, operadores e prestadores de serviços para discutir os desafios e as transformações do setor. A iniciativa também abriu espaço para a troca de experiências e para a construção de conexões estratégicas, com destaque para oportunidades de inserção internacional, como a InnoTrans 2026, em Berlim.

Durante o evento, representantes da Câmara apresentaram a InnoTrans, considerada a maior feira ferroviária do mundo, que reúne fornecedores de toda a cadeia de suprimentos do setor ferroviário de passageiros e carga. A edição deste ano será realizada de 22 a 25 de setembro, em Berlim, e contará com pavilhões dedicados a diferentes áreas, como tecnologia, infraestrutura, transporte público e mobilidade, serviços e construção de túneis, reunindo cerca de três mil expositores de todo o mundo.

Representando os operadores de transporte de passageiros sobre trilhos, a ANPTrilhos apresentou um panorama atualizado do setor no Brasil, evidenciando sua relevância e, ao mesmo tempo, os limites da estrutura atual frente à crescente demanda urbana. Hoje, o país transporta mais de 2,5 bilhões de passageiros por ano e conta com uma rede que ultrapassa mil quilômetros de extensão, presente em dezenas de municípios.

“Temos uma base operacional importante, mas ainda distante do necessário para atender às cidades brasileiras. Expandir o transporte sobre trilhos é uma decisão estratégica para promover eficiência, inclusão e sustentabilidade”, afirmou Ana Patrizia.

A executiva destacou que a ampliação da malha metroferroviária passa por entraves estruturais, como a restrição fiscal de estados e municípios, a ausência de fontes estáveis de financiamento e a necessidade de modernização regulatória. “Sem previsibilidade e mecanismos permanentes de financiamento, os projetos tendem à fragmentação. É fundamental avançar em planejamento integrado, segurança jurídica e modelos que viabilizem investimentos de longo prazo”, pontuou.

Nesse contexto, instrumentos como o Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU) e o avanço do Novo Marco Legal do Transporte Público (PL 3.278/2021) foram apontados como essenciais para dar maior consistência à expansão do setor, ao alinhar diretrizes, governança e fontes de financiamento.

Ao articular diferentes atores em torno de uma agenda comum, o encontro colocou em perspectiva a centralidade do diálogo institucional e da cooperação internacional para o avanço do transporte sobre trilhos no Brasil como base de uma estratégia de desenvolvimento urbano mais eficiente, sustentável e integrado. Participaram também a diretora da Artesp, Fernanda Rodrigues Rudnik, e Gustavo Giardini, Head of Global Partnerships for Deutsche Bahn Engineering & Consulting GmbH (DB E.C.O. Group), contribuindo com visões institucionais e experiências internacionais sobre o desenvolvimento do setor.