Por Ana Patrizia Lira, diretora-presidente da ANPTrilhos
As cidades são organismos vivos. Crescem, se reinventam e se movem em busca de equilíbrio. Mas, à medida que se expandem, enfrentam um desafio que define sua qualidade de vida e sua capacidade de prosperar: a mobilidade urbana. Em um país onde milhões de pessoas passam horas do dia presas no trânsito, a forma como escolhemos nos deslocar é mais que uma questão de conveniência – é uma decisão coletiva sobre o tipo de sociedade que queremos construir.
Nesse cenário, o transporte público coletivo se revela como o eixo estruturador de cidades mais justas e funcionais. E, entre todos os modais, os sistemas de transporte sobre trilhos – metrôs, trens urbanos e VLTs – ocupam um papel estratégico e insubstituível. Eles são a espinha dorsal de uma mobilidade eficiente, sustentável e moderna, capaz de integrar territórios, gerar oportunidades e promover qualidade de vida.
Os números comprovam essa relevância. Segundo o Balanço do Setor Metroferroviário 2025, o Brasil conta com 21 sistemas operados por 16 empresas públicas e privadas, distribuídos em 11 estados e no Distrito Federal, totalizando 49 linhas metroferroviárias e 1.137,5 km de rede. Juntos, esses sistemas transportaram 1,264 bilhão de passageiros apenas no primeiro semestre de 2025, um crescimento de 0,4% em relação a 2024 –, o que equivale a mais de 8 milhões de viagens por dia útil.
Em contraste, a frota de veículos particulares continua crescendo. Segundo o Ministério dos Transportes, o país alcançou 99,5 milhões de automóveis, motocicletas e motonetas em junho de 2025 – 3,6% a mais que no ano anterior. Esse aumento pressiona a infraestrutura viária, amplia congestionamentos e eleva o consumo de combustíveis fósseis. Cada trem lotado, portanto, representa milhares de automóveis a menos nas ruas e toneladas de emissões de CO2 que deixam de ser lançadas na atmosfera.
O transporte sobre trilhos tem a capacidade de deslocar grandes volumes de passageiros com rapidez, segurança e previsibilidade, reduz o tempo de viagem, desafoga o trânsito e diminui substancialmente o consumo de energia por passageiro/km transportado. Essa eficiência faz dos trilhos um aliado fundamental da descarbonização e da transição energética, promovendo cidades mais limpas, resilientes e preparadas para o futuro.
Além dos benefícios ambientais, há impactos econômicos expressivos. A retirada de veículos individuais e ônibus das vias urbanas reduz o número de acidentes, os custos com atendimento médico e indenizações e prolonga a vida útil do pavimento, economizando recursos públicos. Cidades com redes estruturadas de transporte sobre trilhos registram ganhos diretos em produtividade: o tempo poupado em deslocamentos se converte em horas de trabalho, lazer e convivência. Empresas se tornam mais competitivas, o comércio local se fortalece e as cidades se tornam mais atrativas a investimentos.
Do ponto de vista urbano, os trilhos reconfiguram o espaço e o modo de viver nas cidades. Aonde o metrô chega, surgem novos polos de desenvolvimento, valorização imobiliária e requalificação urbana. Essa integração é potencializada pelo conceito de Transit-Oriented Development (Desenvolvimento Orientado ao Transporte), que estimula o adensamento e o uso misto do solo no entorno das estações, aproximando moradia, trabalho e serviços e reduzindo a necessidade de longos deslocamentos.
Investir em trilhos é investir em cidadania. É garantir o direito de ir e vir com dignidade, acesso e segurança. É assegurar que o transporte público seja, de fato, o pilar de cidades mais democráticas, eficientes e ambientalmente responsáveis. O desafio que se impõe agora é transformar as evidências em ação concreta, priorizando os trilhos na agenda nacional de mobilidade.
Nesse sentido, deve haver o compromisso das autoridades decisoras de defender e fortalecer a expansão do transporte público de passageiros sobre trilhos em todo o Brasil. Cada estação inaugurada, cada quilômetro ampliado, é um passo em direção a um país mais integrado, sustentável e humano. São os trilhos que movem as cidades – e é sobre eles que se constrói o futuro da mobilidade urbana.
Artigo publicado na revista Brasil Engenharia, em janeiro/2026.

