O futuro da mobilidade nas cidades brasileiras depende cada vez mais da capacidade de integrar diferentes modos de transporte, ampliar o acesso da população e garantir eficiência nos deslocamentos. Discutir esses caminhos é fundamental para enfrentar desafios como congestionamentos, desigualdade de acesso e sustentabilidade.
Em entrevista exclusiva, Fernando Paes, Diretor de Relações Governamentais da 99, ressalta a perspectiva da empresa sobre como a colaboração entre iniciativas públicas e privadas pode fortalecer o transporte coletivo e oferecer alternativas complementares. Paes também comenta ações voltadas à integração modal, investimentos em inovação e estratégias para tornar a mobilidade mais segura, inclusiva e alinhada às necessidades das cidades.
Como você avalia o momento atual da mobilidade urbana no Brasil e os caminhos possíveis para a sua evolução?
O Brasil passa por uma transição profunda na mobilidade urbana, marcado pela busca por soluções mais eficientes, inclusivas e integradas. A diversidade nas formas de deslocamento ganha protagonismo diante dos desafios estruturais das grandes cidades, como congestionamentos, altos custos de transporte e falta de acessibilidade em regiões periféricas.
Atenta às necessidades da população brasileira, a 99 conta com um portfólio de categorias para os mais diferentes perfis de usuários. Um exemplo de integração de modais é a categoria 99Moto, lançada há três anos, e que já completou mais de 1 bilhão de viagens. Segundo um estudo apresentado pela Access Partnership, a modalidade gera uma economia anual de até USD 2,4 bilhões para os usuários, além de 26 minutos economizados por dia — uma redução de 41% no tempo de deslocamento. Os dados apontam ainda que de 15% a 18% dos usuários da 99 passaram a utilizar mais o transporte público.
Além disso, os serviços de moto por aplicativo são fundamentais para aliviar o congestionamento urbano. De acordo com o Scorecard de Tráfego global INRIX 2022, São Paulo é considerada uma das 50 cidades mais congestionadas do mundo, com o passageiro médio perdendo surpreendentes 56 horas/ano por ficar preso no trânsito. Com o lançamento da 99Moto em São Paulo, mais de 1 milhão de corridas foram realizadas, enquanto o serviço estava em operação em janeiro e também na retomada em maio. O que permitiu uma economia de tempo de deslocamento para os paulistanos.
Outro movimento que acontece no país é a eletrificação da frota nacional. Entendo a importância de uma mobilidade mais sustentável e sabendo que ela é o presente, e não mais o futuro, desde 2022, a 99 lidera a Aliança pela Mobilidade Sustentável, coalizão que reúne as principais áreas do ecossistema para promover e acelerar a mobilidade urbana. Como resultado do grupo, a 99 conta hoje com mais de 19 mil veículos elétricos e híbridos cadastrados na plataforma, que ajudaram a evitar mais de 18 mil toneladas de CO² na atmosfera.
Como a sua organização se conecta com a proposta de debater temas estruturantes para o futuro da mobilidade no Brasil?
A 99 tem atuado de forma estratégica para debater e apoiar a mobilidade no Brasil, o que tem sido traduzido com ações concretas e mais inteligentes que tragam integração com o transporte público. Em um estudo feito em parceria com a Access Partnership, com base em dados da 99, descobrimos que os serviços de moto por aplicativo têm ampliado o acesso à mobilidade e gerado impacto socioeconômico positivo.
Como comentei anteriormente, os cariocas ganharam uma redução de 41% no tempo de deslocamento, o que representa 26 minutos a menos por dia, além de uma economia estimada de USD 2,4 bilhões por ano. Além disso, o modal tem sido visto como uma forma de integração, oferecendo alternativas especialmente nos trechos de “último milha”, o que aponta que a categoria 99Moto não substitui o transporte público, mas complementa o sistema urbano e oferece mais opção para o usuário na hora de chegar em casa ou no trabalho, por exemplo.
O impacto da integração também reflete na vida dos profissionais. No Rio, 78% dos motociclistas parceiros relataram aumento de até 40% na renda, sendo que dois terços são os principais provedores de suas famílias. A atividade também promove inclusão financeira: 65% se tornaram mais independentes financeiramente e 67% passaram a usar contas bancárias com mais frequência.
Participar deste debate é, para nós, essencial. Acreditamos que soluções duradouras virão da colaboração entre setor público, privado e sociedade civil, com base em dados, inovação e foco nas reais necessidades da população é possível criar opções que se adequem a diferentes perfis de usuários, regiões do Brasil.
Qual a importância da cooperação entre os diversos modos de transporte para alcançar soluções mais completas de mobilidade?
Como plataforma, entendemos que nenhum modal, isoladamente, consegue atender todas as necessidades e particularidades da população, principalmente em um país do tamanho do Brasil. Como dissemos, a 99 está presente em mais de 3.300 municípios e conta com cerca de 1,5 milhão de motoristas e motociclistas parceiros que conectam mais de 50 milhões de usuários da companhia aos seus destinos.
O transporte por aplicativo, por exemplo, é essencial para oferecer deslocamentos mais fluidos. O modal de 99Moto tem contribuído para tornar o transporte mais acessível. Com viagens até 40% mais econômicas, em média, do que as realizadas por automóveis, o serviço pode gerar 40% mais ganhos financeiros para motociclistas, gerar empregos indiretos e fomentar a arrecadação de impostos para a cidade.
Entre os principais benefícios da categoria, está sua utilização como primeira e última milha em integração com o transporte público, mais de um terço das corridas começam ou terminam a menos de 100 metros de estações de transporte público. Já o tempo gasto no trânsito pode ser reduzido em até 41%.
Estudos mostram que o modal impacta positivamente na vida dos usuários, principalmente entre as mulheres. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva mostra que 96% das mulheres de baixa renda que se deslocam pela cidade têm medo de sofrer violências como assédio sexual e roubo. Entre elas, cerca de 70% acham que o transporte em moto por intermédio de aplicativo é uma alternativa mais segura do que caminhar à noite pelas ruas.
Com a conexão a outras formas de transporte, reduzimos tempos de espera e melhoramos a experiência dos usuários. Essa integração também permite um planejamento de mobilidade mais inteligente e sustentável e, a partir de análises de dados, é possível identificar gargalos, entender padrões de uso e tanto plataformas como a 99 como a iniciativa pública pode propor soluções mais assertivas e eficientes para a população.
Quais soluções ou iniciativas da sua organização você destacaria como contribuição concreta para um transporte mais moderno e acessível?
A 99 também investe continuamente em tecnologia para tornar a mobilidade mais moderna, segura e acessível. Atualmente, o aplicativo conta com mais de 50 funcionalidades de segurança, como alerta de velocidade, governança contra direção perigosa, cursos de direção preventiva, checagem de dados, monitoramento em tempo real das corridas, botão de emergência e central de segurança 24 horas.
Fomos pioneiros na aplicação de telemetria para motos, tecnologia desenvolvida a partir da experiência da DiDi Chuxing na China e adaptada ao contexto brasileiro. Essa solução reforça a segurança de passageiros e condutores, colocando a 99 na vanguarda da inovação em mobilidade urbana. Outra iniciativa inédita é o Relatório de Direção, que compartilha dados comportamentais com os motociclistas parceiros, promovendo mais transparência, autodesenvolvimento e segurança viária, um diferencial em relação a concorrentes que mantêm essas informações restritas.
Por fim, a parceria entre a 99/DiDi e o Instituto Mauá de Tecnologia alia expertise global à excelência acadêmica para criar soluções com base científica. Essa colaboração reflete nosso compromisso com a inovação responsável e o desenvolvimento profissional dos parceiros, contribuindo para um ecossistema de mobilidade mais inteligente e seguro.
Como a empresa tem se posicionado diante da crescente demanda por sustentabilidade nos sistemas de transporte?
A 99 tem se posicionado de forma estratégica. Embora o país ainda esteja nos estágios iniciais da adoção de veículos elétricos, a empresa já acumula dados reais de operação que demonstram o potencial dessa transição. Por meio da Aliança pela Mobilidade Sustentável, a 99 tem fomentado um deslocamento com veículos elétricos e híbridos: como já comentado foram já foram realizadas mais de 20 milhões de viagens com carros eletrificados na plataforma.
Para que isso seja possível a companhia aposta em uma solução economicamente viável para motoristas parceiros, começando por regiões onde a eletrificação já faz sentido econômico, por meio da categoria 99electric-Pro. Essa atuação faz parte de uma estratégia mais ampla que visa tornar o transporte elétrico uma opção acessível e cotidiana, ao mesmo tempo em que contribui para melhorar a qualidade de vida nas cidades, com menos ruído, redução das emissões de carbono e viagens mais seguras. Outro objetivo central é ampliar a participação de veículos eletrificados, acompanhando os compromissos estabelecidos durante a COP28. Como líder em mobilidade urbana de duas e quatro rodas, a 99 entende seu papel na aceleração da transição energética e reforça o compromisso com soluções sustentáveis e de impacto positivo no ambiente urbano.
O Conexão ANPTrilhos traz temas como financiamento, marco legal e planejamento de longo prazo. Qual deles você acredita ser mais estratégico hoje, e por quê?
A 99 entende que não é possível pensar em soluções estruturais se tratarmos esses temas de forma isolada. Eles precisam caminhar juntos e alinhados com políticas públicas abrangentes, construídas com a participação dos governos federal, estadual e municipal. Quando pensamos em planejamento vale reforçar que as iniciativas precisam ser políticas de Estado para que os avanços não sejam interrompidos a cada mudança de gestão.
As empresas também têm seu papel nesse processo e precisam investir em soluções sustentáveis economicamente. Além da categoria 99electric-Pro, vou citar como exemplo a 99Moto, transporte de pessoas em motos por aplicativo. Pesquisas da 99 mostram que as viagens têm, em média, 5,6 km de percurso, 11 minutos de duração e integram a periferia a estações de transporte coletivo. Além disso, passageiros da 99Moto economizam 26 minutos por dia no Rio de Janeiro, por exemplo, uma redução de 41% no tempo diário de viagem. Os usuários ganham mais tempo para fazer outras atividades, além de ter mais tempo para o descanso até recomeçar a jornada de trabalho.
O setor público e privado têm papéis complementares na estruturação da mobilidade. Como vocês avaliam essa relação no contexto brasileiro?
A 99 entende que é necessário ter uma boa relação e parcerias estratégicas entre o setor público e privado. Um case que temos bastante orgulho é da nossa parceria com a cidade de Fortaleza, onde por meio da Carta de Intenções de Projetos, a empresa criou um pacote de com diversas ações com foco na segurança e mobilidade urbana. A parceria com a cidade incluiu ações como: campanhas de conscientização no trânsito, focadas especialmente em usuários de motocicletas; além de termo de cooperação técnica para compartilhamento de informações relacionadas a acidente com a finalidade de amparar a elaboração de políticas públicas locais. Além de como já comentada, a cidade foi a primeira do país a contar com o Relatório de Segurança da 99.
Qual mensagem a sua organização gostaria de deixar ao setor e aos participantes do Conexão ANPTrilhos 2025?
Ao participarmos do Conexão ANPTrilhos 2025 queremos ampliar as possibilidades de integração com o transporte público, uma vez que os nossos dados mostram que mais de um terço das corridas começam ou terminam a menos de 100 metros de estações de transporte público, evidenciando como os serviços por aplicativo funcionam como primeira e última milha, complementando o sistema de transporte coletivo.
A participação da 99 no Conexão reforça nosso compromisso com a construção de uma mobilidade urbana mais integrada, eficiente e sustentável. Acreditamos que esse evento é um espaço fundamental para o diálogo entre os diversos atores do setor, permitindo a troca de experiências, o compartilhamento de boas práticas e a construção conjunta de soluções para os desafios da mobilidade no Brasil.

