Trem Curitiba-Morretes transporta os passageiros para a história da ferrovia e contemplação de belas paisagens da Serra do Mar
20/05/2025 – Revista Ferroviária Edição Novembro/Dezembro-2024
O trem Curitiba-Morretes é um grande conhecido do turismo ferroviário, reunindo história e belas paisagens ao longo do seu percurso. Não tem quem não se apaixone por esse desbravador da serra paranaense, que tem percurso de cerca de 4h30, ao longo de 70 quilômetros, passando por 41 pontes e 13 túneis. A Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá é considerada uma obra-prima da engenharia.
O passeio começa na Estação Rodoferroviária de Curitiba, onde embarcamos na Litorina modelo BUDD RDC, fabricada na década de 60, nos Estados Unidos. A composição é puxada por três locomotivas pertencentes à Rumo Logística, operadora dos trens de carga da região.
O passeio tem duas categorias – turística e econômica; classificação dos carros de passageiros como Boutique: Barão do Serro Azul, Bove, Imperial, Camarote, Guardiões do Marumbi e Carmen Silva (Acessível); e três litorinas de luxo: Copacabana, Curitiba e Foz do Iguaçu. As diferenças são em relação aos carros, sendo alguns mais luxuosos e outros mais simples. A Litorina é o único trem de luxo do Brasil e o único do mundo com sistema automotriz, com tração própria, ou seja, ela pode viajar pelos trilhos sem a necessidade de toda a composição.
Viajamos na categoria turística, com poltronas duplas e estofadas no tom vermelho e janelas amplas. Essa opção não conta com decoração, mas tem um diferencial nos encostos das poltronas, que são flexíveis, possibilitando a mudança de sentido dos assentos para acompanhar o sentido do trajeto do trem.
Operado pela Serra Verde Express, os carros de passageiros do trem preservam as características históricas. Adultos e crianças ficam encantados e aproveitam para tirar fotos nas janelas da composição.
O dia ensolarado traz ainda mais beleza à viagem, que começa às 8h30 com o trem a 40 km/h no percurso urbano e depois passa a ter velocidade variada entre 20 e 30 km/h no trecho de serra, dependendo das condições do percurso e da topografia.
Passando o primeiro túnel do percurso, o de número 13, avistamos a Represa do Caiguava, que fornece água para Curitiba. No meio dela, uma antiga chaminé que permaneceu intacta mesmo após a inundação da área.
O Rio Ipiranga vai margeando a ferrovia, mudando o lado do seu avistamento de acordo com o percurso sinuoso da ferrovia. Ruínas de casas usadas pelos antigos mascates – comerciantes que vendiam produtos variados de casa em casa – fazem parte do cenário.
No pátio Banhado, o maquinista liga a terceira locomotiva, explica o monitor Edwin, que acompanha a viagem e vai contando um pouco sobre cada trecho da via. Ele comenta que antes, neste local, era feita uma troca de locomotiva. O guia é filho e neto de ferroviários e cresceu escutando as histórias sobre a linha.
Às 10h43, passamos por um pátio de cruzamento, onde um trem de carga cruza com o turístico e libera areia na via para a aderência roda-trilho. As ruínas da estação Véu de Noiva estão à direita. Equipes da concessionária trabalham no percurso.
Após o túnel 9, forma-se um vale imponente e é possível ver a ferrovia na outra ponta. Um momento que os turistas se entusiasmam para tirar foto. As janelas abrem bem, proporcionando uma visão privilegiada e o frescor da brisa da serra.
Após o túnel seguinte está o Santuário Nossa Senhora do Cadeado, na região conhecida como Porto de Cima, área territorial da cidade de Morretes. Tem um momento semelhante a um coreto e há o registro histórico que a Princesa Isabel fez uma refeição no local.
Entre os túneis 10 e 11 da ferrovia, a serra forma uma fenda denominada Garganta do Diabo. A paisagem é do paredão do Morro dos Coroados e o cânion formado pelo Rio Ipiranga, nosso companheiro de viagem.
O guia explica que a numeração dos túneis é a mesma descendo ou subindo a ferrovia e que a construção da via foi um desafio da engenharia. Transpor trechos de serra é sempre um duelo com a natureza.
Chegamos a um dos pontos mais atrativos da viagem, que é a Ponte São João, sob o rio do mesmo nome, e a maior da ferrovia. Quando o trem passa por ela a impressão é que ele está flutuando entre o abismo e o trecho da serra. A construção tem 70 metros de altura em seu ponto mais elevado e extensão de 112 metros.
Segundo a Serra Verde Express, a ponte foi projetada no Brasil e construída na Bélgica, sendo transportada em pedaços para ser montada na Serra do Mar Paranaense. O projeto final foi inspirado no planejamento do engenheiro brasileiro Antônio Rebouças, responsável pela construção da estrada de ferro que liga Curitiba a Paranaguá. Apesar de hoje ser um dos maiores atrativos turísticos no passeio de trem, a principal utilidade da ponte no século XIX era para fins econômicos e comerciais de escoamento, principalmente, de erva-mate. Uma das grandes dificuldades em construir algo tão grande e complexo numa região de Mata Atlântica foi a constante presença da chuva. Os trabalhadores começaram a montar a ponte em 1882 e, só dois anos depois, em 26 de junho de 1884, é que foi oficialmente inaugurada.
As escarpas da serra formam uma paisagem exuberante em meio aos tons de verde da vegetação, com vales e trechos de abismos. As formações atraem grupos de trilheiros, que aproveitam a passagem do trem para tirar fotos.
Chegamos à Estação Marumbi, onde existe uma trilha regular. O trem faz uma parada neste local às 11h para que os aventureiros desçam para se divertir pelos caminhos da serra. Eles precisam estar na estação às 16h para subir no trem que faz o percurso inverso, Morretes–Curitiba. Nosso guia comenta que os montanhistas paranaenses costumam deixar garrafões de água ao longo dos percursos para uso em caso de incêndios florestais.
Estamos na área de Morretes e o guia brinca que toda parte bonita do passeio pertence ao município. Ele conta que, segundo as histórias da região, o engenheiro Rudolph Lange, que foi o responsável por projetos importantes como a reforma das estações ferroviárias de Curitiba, Paranaguá e Antonina, foi enterrado de pé, olhando para o complexo de montanhas do Marumbi, por onde passamos.
A primeira referência oficial da construção da linha é de 1856, no terceiro artigo da Lei Provincial nº11, de 30 de abril daquele ano, autorizando o governo a contratar a obra da ferrovia. A via iniciou sua construção em 1873, segundo o livro “Gente nossa, Coisas nossas”.
Chegamos ao pátio de Morretes ao meio-dia. Crianças acenam para os turistas, que desembarcam na estação da cidade. A primeira parada é para saborear o famoso barreado, uma carne cozida por 12h com farinha de mandioca. A pequena cidade é charmosa, com atrativos gastronômicos e artesanais. A cidade foi uma das principais beneficiadoras de mate.
O retorno para Curitiba é de van pela Estrada da Graciosa, uma das mais pitorescas do Brasil. Informações sobre o trem turístico: www.serraverdeexpress.com.br.
Carro Acessível
O trem da Serra Verde Express conta com um carro de passageiros acessível com elevadores para cadeirantes, portas mais largas, espaços reservados no interior para acomodar cadeiras de rodas e banheiro adaptado. Ele é preparado para atender pessoas com mobilidade reduzida, cadeirantes e autistas.
O carro conta com abafador de som para autistas, proporcionando maior conforto acústico, minimizando o impacto de sons altos durante o passeio. A Serra Verde tem um guia com o espectro e ele atua normalmente em carros convencionais, não apenas no vagão inclusivo. Segundo a empresa, “ele faz parte da equipe por sua capacidade impecável de atendimento a qualquer tipo de demanda, não só para aquelas referentes à inclusão”.
A empresa adota uma política inclusiva com foco na acessibilidade, que envolve treinamento de funcionários, adaptações no espaço físico e ações de conscientização para receber bem todos os visitantes, independentemente de suas condições físicas ou neurológicas.
Animais de pequeno porte são bem-vindos
Hoje em dia é comum as pessoas viajarem e levarem os seus animais de estimação. Para atender essa demanda, o Trem Curitiba-Morretes conta com um carro chamado Bove para receber os pets de pequeno porte, cachorros e gatos.
Segundo a Serra Verde, esse é o primeiro carro de passageiros pet friendly do Brasil. Ele conta com espaço para os animais seguirem confortáveis na viagem ao lado de seus tutores. Também possui uma varanda, localizada na parte central, entre os lounges. Os pets recebem água à vontade e um kit biscoito.
Para que os bichinhos possam fazer o passeio é obrigatório apresentar carteira de vacinação comprovando a imunização antirrábica há mais de 30 dias; autorização de um veterinário para a realização do passeio (emitida há menos de 15 dias); o tutor assinar os termos de responsabilidade e pagar uma taxa no valor de R$ 30 por animal.
Varanda ferroviária
Para aqueles que gostam de estar mais perto da natureza e sentir a brisa da viagem, o trem conta com carro com varanda. Ao todo, quatro carros são acoplados ao trem, de acordo com a demanda. Eles possuem capacidades diferentes, acomodando de seis a 20 pessoas.
Todos os carros do trem possuem um guia de turismo e um auxiliar, que vão apresentando as curiosidades e dados históricos do percurso. No carro-varanda os guias também orientam sobre segurança, explicando que não pode se debruçar ou colocar objetos/corpo para fora do trem.
