O auditório do Ministério dos Transportes transformou-se, nesta terça-feira (28/10), em um espaço de convergência de ideias e propósitos. O 2º Workshop de Transporte Ferroviário de Passageiros, promovido pelo Ministério com o apoio da ANPTrilhos, reuniu autoridades, executivos e especialistas para debater os caminhos que podem reconectar o Brasil por meio dos trilhos, de forma sustentável.
Na abertura, a diretora-presidente da ANPTrilhos, Ana Patrizia Lira, destacou que a segunda edição do workshop é a continuidade prática do primeiro encontro — um passo à frente para transformar planejamento em execução. “É hora de tirar projetos do papel, com coragem e pioneirismo, priorizando um transporte que salva vidas nas rodovias, reduz emissões e entrega qualidade de vida”, afirmou. O secretário nacional de Transporte Ferroviário, Leonardo Ribeiro, ressaltou o ambiente macroeconômico favorável e a necessidade de modelagens inovadoras, com o aproveitamento de malhas existentes, receitas alternativas via real estate e TOD (Transit Oriented Development), além de segurança regulatória.
Cinco painéis, uma mesma direção
O Panorama Internacional abriu as discussões com experiências do Reino Unido. Vanessa Barbalat, Diretora de Infraestrutura e Indústria do Departamento de Negócios e Comércio do Consulado-Geral Britânico, apresentou a estratégia britânica de infraestrutura de 10 anos, baseada em planejamento integrado, pipeline público de projetos e garantias do UK Export Finance para investimentos no Brasil. Já o Especialista em TOD da Crossrail International, Ian Lindsay, destacou a Elizabeth Line, de Londres, como exemplo de como o desenvolvimento imobiliário no entorno das estações pode gerar receitas que retroalimentam o sistema, transformando a captura de valor urbano em motor da ferrovia.
Na sequência, o painel sobre Operações Urbanas Consorciadas (OUC) abordou a integração entre planejamento urbano e transporte. A professora pesquisadora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB, Yaeko Yamashita, ressaltou que o sucesso das OUCs depende de governança e modelo de negócios sólidos. Victor Carvalho Pinto, consultor legislativo do Senado, apresentou soluções jurídicas e financeiras para ampliar a captura de valor, enquanto Vicente Correia Lima Neto, do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, lembrou que, em muitos casos, a Lei das Ferrovias pode oferecer um caminho mais ágil, desde que articulado aos planos diretores municipais.
O debate sobre Articulação Intergovernamental reforçou a importância de uma governança interfederativa clara e colaborativa. Cristian Viana, secretário do Entorno do Distrito Federal, destacou que a integração não é perda de autonomia, mas otimização de recursos. Mário Dirani, assessor técnico da Secretaria Especial do Programa de Parcerias de Investimentos da Casa Civil, apontou o papel coordenador do PPI e o uso de imóveis da União como ativos de apoio às concessões. Já Fátima Daudt, secretária de Relações Federativas de Porto Alegre (RS), enfatizou que não há desenvolvimento metropolitano sem transporte sobre trilhos — eixo estruturador da mobilidade e da inclusão.
O painel sobre Desafios Regulatórios e Financiamento apresentou caminhos concretos para viabilizar grandes empreendimentos ferroviários. Fernando Feitosa, superintendente de Transporte Ferroviário Substituto da ANTT, defendeu que o valor das ferrovias vai além da tarifa e precisa refletir as externalidades que produzem. Juliana Criscuolo, diretora Jurídica da Motiva, reforçou que o arcabouço jurídico já permite explorar receitas imobiliárias associadas. Juan Landeira, diretor da A&M Infra, destacou a necessidade de transformar teoria em prática, e Alberto Malta, diretor executivo de Real Estate da TAV Brasil, afirmou que o real estate é decisivo: “É o que permite antecipar recursos e transformar o sonho em obra”.
Encerrando o encontro, o painel sobre Externalidades Positivas destacou o impacto dos trilhos na redução de emissões, na resiliência urbana e na reorganização das cidades. Luiz Antonio Cortez, gerente de Planejamento e Meio Ambiente do Metrô de São Paulo, apontou a eficiência energética e o uso racional do espaço urbano; a analista da Secretaria de Sustentabilidade do Ministério dos Transportes, Juliana Tamanaha, lembrou que sistemas ferroviários também são infraestruturas resilientes; e Marcus Britez, gerente de Projetos no setor de Transporte de Passageiros e Mobilidade Urbana do LabTrans/UFSC, apresentou estudos que quantificam benefícios, como a redução de acidentes e o aumento da produtividade.
Ana Patrizia Lira destacou, ao final, que “os trilhos são o caminho para um Brasil mais integrado, sustentável e humano. E é nossa responsabilidade garantir que esse caminho siga aberto — em movimento, em expansão e em transformação”.







